*Ethel Leon, em 30 de agosto de 2018

 

Design karaokê! Ouvi a jocosa expressão de Aurel Aebi, um dos titulares do Atelier Oï. Ele está em São Paulo e, anteontem, deu uma linda palestra na Atec. Hoje conduziu um grupo de interessados nas salas do Museu da Casa Brasileira, onde está instalada uma exposição da produção do escritório suíço.

Visita orientada com Aurel Aebi

Aurel fala com certa raiva e desprezo do design que segue “tendências” (o karaokê, simulacro de canto); e também do que chamou de turismo de CEOs das grandes empresas, alguns deles tão míopes, que negam aos designers o acesso a seus arquivos. “Sem passado”, repetiu Aurel diversas vezes, “não há futuro”. A professora de história ali presente aplaudiu!

A expressão design karaokê não era nova para mim. Ouvi-a, pela primeira vez, há cerca de 15 anos da boca de Enzo Mari, outro crítico contumaz do design dirigido pelo marketing e pela ansiosa necessidade de adaptação dos projetos à gula do mercado.

Visita orientada com Aurel Aebi

Haveria muito que contar do Atelier Oï que migra soluções da micro-escala do objeto para a arquitetura e vice-versa. Uma delas, que encontro toda semana, são os produtos da também suíça USM. O Atelier Oï entendeu a história da empresa, que partiu de componentes industrializados para a construção, migrou para sistemas de armazenamento – estantes, armários, todos modulares e lindos. Pois bem, o Atelier Oï, como se retomasse esse fio da USM, projeta painéis acústicos que são objetos, mas que, ao serem colocados em ambientes, criam espaços. O mesmo elemento, forrado de feltro serviu para a feitura de caixas super resistentes. Ao ver os painéis, pensamos nesses sonhos da construção industrializada….de alta qualidade, de fácil reprodução. Aurel Aebi falou dessa capacidade de inovar em empresa tão tradicional, a USM, que produz o mesmo sistema há décadas: “Só conhecendo bem a trajetória desta indústria é que foi possível inovar dentro dela, sem ferir seus princípios”.

O Atelier OÏ tenta entender em profundidade as demandas de cada cliente e faz experiências internas, no atelier, sem saber no que vão dar. Mas sempre resultam em algo, em aprendizagem, em novos produtos, em instalações, “Não procurarmos o sucesso, mas o que sucede”, e a frase não era de efeito, mas explicativa do processo rico, que se insurge contra certos hábitos do cotidiano atual.

Ao explicar as luminárias  dançarinas, instaladas na primeira sala do MCB, o designer chamou atenção para nosso filtro desgastado, de ver as exposições sem vê-las, sempre com a mediação da câmera do celular.


É claro, os suíços estão no centro do mundo e têm uma clientela invejável e poderosa que pode bancar seus projetos inovadores. Mas é lindo ver a postura de fazer migrar soluções de um território produtivo a outro; de uma escala a outra. Isso que faz da profissão de designer algo interdisciplinar, em que sempre se aprende e nada se repete.

Outro ponto em destaque do trio suíço (e sua equipe de 35 profissionais, designers, arquitetos, engenheiros é o apreço pelos materiais e pela manualidade do projeto, pela escala sempre artesanal em que o projeto se realiza, mesmo que fadado a ser incorporado pela grande indústria.

O Atelier Oï examina, com certa crítica, o mundo contemporâneo, os novos hábitos e abraça discussões como natural x artificial, levando o debate a uma tensão, sem resolvê-lo. – como no caso do ‘plantio’ de juncos artificiais iluminados que se mexem com o movimento natural das águas de um lago.

Observações apressadas, vontade de escrever mais, mas não aqui, escrever pausadamente, longe desse insensato mundo da web. Aliás, o Atelier Oï mantém no lago de sua cidade um barco, em que são feitas as reuniões com clientes. “No meio da água os celulares não têm sinal e é possível concentrar-se”, comentou o  simpaticíssimo Aurel, muito distante de esnobes stars que, por vezes, nos visitam.

Confira o vídeo da montagem da exposição Indústria Artesanal, do atelier oï, em cartaz no Museu da Casa Brasileira e a palestra de Aurel Aebi, do estúdio suíço, na Atec Cultural de agosto.

 

 

*Ethel Leon é pesquisadora, professora de História do Design Brasileiro e curadora da Atec Cultural